Em busca da casa móvel

Essa é uma restauração da história contada originalmente durante 8 meses em 2015.

O texto restaurado será enviado gradualmente. Fique a vontade para participar!


Quarta-feira, 1 de Abril de 2015 às 21:12

Olá a todos,

Esse tópico é em parte minha introdução ao forum, e em parte a história da busca de nossa casa móvel nos últimos meses, que pode servir de inspiração ou no mínimo um pouco de entretenimento.

Trabalho na área de software (e um pouco de micro-eletrônica, como hobby), e há muito tempo pensava em ter uma casa móvel. Estudava possibilidades, lendo bastante online. Apesar de não ser praticante do acampamento mais tradicional, sempre gostei de viajar com menos planos de estadia, permitindo que a viajem se adaptasse a vontades imediatas de acordo com os lugares visitados, e sonhava com a possibilidade de ficar com algum conforto em lugares sem infra-estrutura nenhuma.

Bom, a vida foi passando e cheguei nos meus 36 anos tendo isso só como um sonho possível mas aparentemente distante. De repente, algum tempo atrás meu filho fez 2 anos, e comecei a sentir um senso de urgência. A velocidade da evolução dele, como a de qualquer criança dessa idade, salta aos olhos. Em breve vai chegar o período da escola, o que vai nos limitar bastante em termos de datas, e em seguida a adolescência pode nos tirar o parceiro por algum tempo. Ficou claro que o melhor período, e que provavelmente criará o sentimento mais duradouro pra ele, é agora. Resolvi então aproveitar alguma disponibilidade financeira que tinhamos para botar o sonho em prática.

O primeiro passo foi intensificar os estudos das possibilidades, incluindo teoria e manuais de equipamentos, relatos de viagens e experiências que me trouxeram mais pra perto deste forum, e até mesmo os classificados da região para acostumar com a faixa de preço e qualidade relativa dos equipamentos disponíveis no mercado.

Então chegou a hora de começar a botar o plano em prática. Algumas semanas atrás começamos a visitar os equipamentos anunciados e a entrar em contato com as fábricas da região (vivemos em Pelotas, RS). Os primeiros equipamentos que visitamos foram os mais próximos de nós, por uma questão de praticidade. Não tinhamos esperança nenhuma de fazer negócio nas primeiras vezes, mas era importante entender a variedade e o estado dos equipamentos, e também queriamos entender na prática como é que a gente se sente dentro dos espaços de diferentes tamanhos.

Bom, até aqui foi a parte chata da história, e a teoria que precede as visitas, as fotos, e o desenrolar da história. Nas próximas mensagens continuo com a parte boa.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2015 às 22:25

Continuando a história, o primeiro motorhome que visitamos foi um Mercedes 1113 ano 1985 do Amauri e seu filho Rodrigo, na cidade de Rio Grande:

Primeiramente conversamos por telefone, e a visita em sí demorou um pouco porque estavamos sem combustível devido à greve dos caminhoneiros na região. Por telefone ficamos sabendo que o motor estava com somente 32 mil km, o que me deixou animado. Se a lataria estivesse em bom estado, poderiamos fazer somente uma modernização interna e ficar com um excelente motorhome.

Na visita, depois que conseguimos reabastecer, ficou claro que o motor não era tão novo assim. O Amauri comprou o motor usado com 20 mil km e andou mais 12, mas a aparência física do motor não era de 32 mil km. Havia evidência clara de pequenos vazamentos de óleo, e a aparência física era de um motor ao norte de 200 mil km. Talvez fosse só a aparência, e ambos os vendedores me pareceram muito sérios, mas era difícil de comprovar a história do motor antes de chegar na mão deles.

A lataria do veículo estava em muito bom estado, e a aparência interna era razoável para um veículo 85:

Ao mesmo tempo, os pequenos detalhes eram inúmeros. Pequenos vazamentos, pequenos locais com indícios de cupim, faróis adaptados que não funcionavam, e assim por diante. Nada que não se arrumasse, e tudo relatado pelos próprios donos. Certamente um novo dono irá apreciar o veículo e fazer muito bom uso dele por anos a vir, mas não estavamos dipostos a arriscar a felicidade de nossa primeira experiência dessa forma.

Dois fatos também serviram de aprendizado durante a pesquisa e visita ao veículo: o consumo de 5km/l pode comprometer nossas decisões de viagens, e seja onde for, gostariamos de móveis mais claros para ampliar a sensação de conforto.

No todo, a primeira vista foi ótima. Trocamos muitas idéias, aprendemos, e melhoramos nossa compreensão do que queremos e não queremos.

Em breve continuo a história…

Quinta-feira, 2 de Abril de 2015 às 00:31

Na sequência da história, decidimos nos voltar para uma paixão nacional. Já sabiamos como era a sensação de espaço dentro de um motorhome de grande porte. Qual seria, então, a experiência dentro de uma Kombi Safari, e por que ela é tão popular?

Mesmo antes da visita, durante a pesquisa preliminar, a segunda parte da questão já ficou clara. Simplesmente não existe nenhum motorhome industrializado (não feito “em casa”) próximo da faixa de preço das Safari no Brasil, ainda mais consiederando que o pequeno motorhome acomoda o sono de 4 ou 5 pessoas. É uma forma acessível de entrar no mundo das casas móveis, e de manutenção muito barata. A paixão é totalmente justificada.

Fomos então em busca de uma Safari a venda para visitação, e encontramos uma pertinho de casa:



O anúncio indicava que era uma Safari 83 “pronta para viajar”, mas eu não esparava muito pelo preço estar bastante abaixo do mercado. Se estivesse em excelente estado, ou estavamos com muita sorte ou já não estaria a venda.

Marcamos então com o Ramilton e fomos conhecer a dita, e novamente fomos muito bem recepcionados. Logo no início da visitação o Ramilton explicou que o motor fundiu e foi recuperado, e que quando ele comprou era utilizado um rodado duplo adaptado que foi removido em favor da configuração original. Ainda observando o compartimento do motor, percebi que a bomba de água estava desconectada da alimentação, e a explicação dada é que a caixa de água não era utilizada, pois sempre que se chegava em um camping o sistema de água era conectado diretamente a torneira. Mas a princípio estava funcionando e poderia ser testada.

Entrando na Safari foi um grande contraste em relação ao primeiro motorhome. Já era óbvio que o espaço era extremamente limitado, mas uma coisa é compreender, e a outra é sentir. Por concidência o dia também estava bastante quente, e a falta de um ar condicionado no espaço restrito tornou a visita desconfortável, o que provavelmente foi marcante e determinante na futura opinião da minha esposa a respeito de veículos pequenos.

Dito isso, o estado interno em geral era bastante razoável, e compatível com o valor anunciado. Não ficou claro o quanto da infraestrutura de viagem realmente funcionava, pois nada do banheiro era utilizado nas viagens, e a geladeira (original!) aparentemente só funcionava com o veículo nivelado. Novamente, compatível com o valor anunciado… mesmo com uma boa reforma provavelmente ainda ficaria abaixo de veículos semelhantes no mercado.

Um fato engraçado: aparentemente o Ramilton recebe em torno de 10 emails por dia a respeito do anúncio, e naquele dia havia recebido um que solicitou fotos mais recentes, pois a que estava online era de quando ela era nova, em 2012, e agora em 2015 já haviam se passado 3 anos desde as fotos! Alguém não fez o dever de casa. :slight_smile:

Ao mesmo tempo que conversava com o Ramilton, também entrei em contato com a Ana, que possuia uma Safari em Porto Alegre recém reformada e retornando de uma viagem de 6 mil km:


O valor era 18 mil acima da primeira Safari, mas aparentemente em um excelente estado, incluindo ar condicionado e outras adaptações adequadas. A Ana foi muito amigável, forneceu vários detalhes interessantes de sua vida de campista, e disse que estava vendendo ela em busca de um veículo maior. Tentei marcar uma visita com a Ana, mas nossos telefonemas se desencontraram, e depois com a primeira visita feita já haviamos aprendido o suficiente a respeito dessa opção, e ficou claro que não iriamos muito longe nessa direção. Ainda devo um telefonema de agradecimento a Ana.

Novamente, muito foi aprendido nessas visitas e conversas, e somos gratos aos anfritriões.

Vou tentar continuar amanhã…

Quinta-feira, 2 de Abril de 2015 às 06:26, por Rodrigo Ribeiro

Empolgante relato, adorei a forma simples de explicar as características principais de cada conjunto. Parabéns, aguardo ansioso o desfecho. Abraços.

Quinta-feira, 2 de Abril de 2015 às 09:14, por Andre Americana

Muito bom texto… estamos aguardando a continuação.

Quinta-feira, 2 de Abril de 2015 às 10:24, por Paulo Rogério

Gustavo, bom dia!

Sensacional o seu relato em busca da ” primeira casa móvel”. Vou acompanhar!

Abraços e Feliz Páscoa!

Quinta-feira, 2 de Abril de 2015 às 18:36

Opa! Somos quase vizinhos então! Vou acompanhar a tua saga que está ótima!

Quinta-feira, 2 de Abril de 2015 às 20:07

Muito obrigado pelos comentários! Continuamos então a história…

Enquanto faziamos as visitas e aprendiamos com veículos usados interessantes que estavam próximos, também estudavamos as empresas que faziam veículos novos. Uma das empresas que nos chamou a atenção foi a Santo Inácio, localizada em Gramado na serra gaúcha, com veículos relativamente pequenos mas com bastante acomodação.

Uma das plantas mais interessantes que vimos foi a do veículo de 8 metros e meio, com slide-out na sala. Utilizando a mesma técnica da Safari com uma cama sobre a cabine, o veículo oferece acomodação para o sono de 6 ou 7 pessoas com conforto:

Depois de um estudo preliminar, entrei em contato com a Santo Inácio para entender melhor a proposta. Fui atendido pelo Victor, do departamento comercial, que durante uma agradável conversa de duas horas por telefone me explicou em detalhe o equipamento, e também todo o processo de acquisição e fabricação dos veículos, que precisa ser agendada e demorava em torno de 6 meses para finalização naquele momento.

O preço para aquisição é alto, mas não totalmente inesperado pelo que já estavamos vendo em geral no mercado de usados. No momento do contato o preço base da montagem ficava em 239 mil, e o preço do chassis Iveco 70C16 Daily, que deve ser adquirido diretamente da Fiat, era estimado em 120 mil. Na soma, e adicionando alguns dos opcionais mais interessantes que gostariamos (sala slide-out, cozinha externa, etc), o preço agregado girava em torno dos 430 mil. Apesar de ser um equipamento de muita qualidade e muitos opcionais, certamente um sonho de consumo de muitos campistas, esse valor é proibitivo para nós. E mesmo que conseguíssemos fazer algum parecelamento milagroso para chegar a esse valor, não conseguiriamos sentar e rodar em um equipamento de meio milhão e esquecer disso, o que acabaria com a diversão.

Sem abandonar a idéia por completo, nos voltamos para os usados. Quase que surpreendentemente, tivemos dificuldade de achar um Santo Inácio usado para vender, o que comprova a impressão inicial: esse é um dos melhores motorhomes fabricados no Brasil, e seus donos não o vendem, ou vendem relativamente rápido. Fizemos então duas frentes de contato: o Victor da Santo Inácio gentilmente nos colocou em contato com o Roger que é o único proprietário de um Santo Inácio na nossa cidade, e paralelamente encontramos um destes motorhomes a venda na cidade de (ironicamente) Não Me Toque no Rio Grande do Sul.

Liguei para o Dirlei, proprietário do veículo a venda, e obtive mais detalhes do equipamento. O veículo é um Santo Inácio 8.5 de 2011, bastante completo, porém com um sofá na sala ao invés da mesa de quatro lugares que vira cama:


Pelas fotos percebe-se que a sala móvel é do modelo antigo, pois nas novas a geladeira sai junto. Não era o ideal, mas longe de ser um fator decisivo. A sala certamente também poderia ser adaptada para a mesa de quatro lugares, e pensamos em entrar em contato com o Victor para ver quanto sairia para fazer o serviço. Porém, antes disso precisavamos conversar sobre o valor. Os 360 mil solicitados ainda estavam muito fora da nossa realidade. Conversando com o Dirlei, ele fez um desconto para pagameto a vista, e nos deixou a vontade para fazer uma proposta. Porém, não quisemos fazer a proposta. Ficaria muito longe do valor solicitado, e poderia ser ofensíva (apesar de que propostas nunca devem ser consideradas ofensívas, mas acontece).

Ainda assim, queriamos conhecer esse grande representante do campismo brasileiro, e na semana seguinte fomos visitar o Roger. Fomos muito bem recebidos, com direito a um tour completo por dentro e por fora do equipamento. O modelo dele era exatamente o que tinhamos visto como o ideal, e ainda por cima possuia uma série de opcionais instalados por conta, como o Rodo Ar e um reforço na suspensão (este último já está sendo feito na fábrica com os modelos novos, segundo ele). Outra curiosidade é que o modelo dele, apesar de ter alguns anos, possuia já o sistema de slide-out que leva a geladeira junto. E não foi por acaso: foi o Roger mesmo que insistiu que a fábrica modificasse o sistema dessa forma, e eles gostaram da idéia e acabaram tornando o sistema como o padrão para novos veículos! Boa idéia de fato.

Bom, na despedida fiz uma piada: “muito bonito o teu motorhome, quanto queres por ele?”, com ar de graça. A resposta foi inesperada. Pois não é que o motorhome estava mesmo a venda, e nós não sabiamos? Ele apresentou todo o equipamento como se estivesse a venda, e nós recebemos as informações como se estivessemos visitando um amigo. Infelizmente para nós, o valor era similar ao do Dirlei, e ficamos na mesma situação: evitamos qualquer proposta. Isso para a tristeza de minha esposa, que se apaixonou pelo equipamento. Realmente é lindo e muito bem acabado.

Por curiosidade perguntei o motivo da venda, e a resposta era quase que óbvia depois de toda a conversa: para comprar um Santo Inácio novo. :slight_smile:

Não tirei nenhuma foto do motorhome porque não sabia que ele estava a venda, mas tirei de um lindo forno a lenha disponível no salão do edifício onde ele se encontrava, que fiquei admirado:

Falando em edifício, uma questão que me chamou bastante a atenção durante o estudo dos Santo Inácio é a altura desses equipamentos. A fábrica recomenda um vão livre de 3 metros e 70, e ao contrário do intuitivo, o ponto mais alto não é a cama sobre a cabine, mas sim o ar condicionado de teto que fica no centro do veículo. Durante todas essas conversas estava em minha mente a preocupação de onde hospedar o gigante, caso fizessemos negócio. Daí pra frente também começei a medir a altura de todos os demais veículos e dos possíveis locais de estadia.

Fato divertido para fechar essa parte da história: outra empresa fabricante de motorhomes novos que estudei foi a Vettura, localizada em São Leopoldo, RS. Os estudos não foram muito longe porque mesmo veículos usados são oferecidos lá por preços bastante elevados e sem justificativa aparente. Para se ter uma idéia, há um trailer Turiscar Eldorado 95 sendo oferecido por 69 mil reais no site deles, valor de mercado geralmente atribuido aos trailers grandes em bom estado. O fato curioso é que esse trailer está descrito como oferecendo acomodação para 8 pessoas: 4 dentro, e 4 fora! Pensei em escrevê-los sugeririndo que aumentassem a descrição para 14 pessoas, 4 dentro, e 10 fora.

Continua em breve…

Sexta-feira, 3 de Abril de 2015 às 22:37, por Andre Americana

Ha ha ha ha ha ha ha…. fantástico relato e observação sobre o trailer… pode sugerir também “acomoda a sogra e todos os agregados…. do lado de fora”…

Abraço

3 de abril de 2015 às 10:03, por João Maia

Triste país. Enquanto na Europa um excelente motorhome 0km custa cerca de 50.000 euros (pouco mais de 150.000 reais), aqui paga-se uma pequena fortuna o que torna inviável o progresso do campismo. Há centenas de oficinas especializadas na manutenção e outras tantas para a compra de equipamentos, além de muitíssimas “áreas de serviços”. Além disso, aqui as estradas são esburacadas, o que faz o veículo trepidar muito causando estragos para os descuidados. A grande maioria dos campings são pobres em equipamentos e outras comodidades.

Recentemente, aluguei um motorhome na Alemanha e percorri alguns países. Meu Deus! Inacreditável a qualidade dos campings, o profissionalismo etc. etc. Nos EUA, são mais baratos ainda. Se pudéssemos importar a preços justos e competitivos, o turismo sobre rodas ganharia um novo mercado e milhares de empregos. Só para se ter uma idéia e sugestões de equipamentos, visitem o site da revista francesa camping-car magazine:

http://www.camping-car.com/

Dá vontade de chorar.

3 de abril de 2015 às 15:36

É verdade, João, e infelizmente a solução do problema não é simples. É bom para todos nós que tenhamos empresas próximas de nós especializadas na construção desses equipamentos, mas para as próprias empresas também sai caro. Essas empresas entregam um número surpreendetemente pequeno de veículos por mês, o que quer dizer que esses poucos veículos tem que pagar todo o serviço. É como viver em um condomínio de luxo com poucos apartamentos… os poucos moradores arcam com todo o custo.

Claro, também existe o chamado “custo Brasil”, como dizem alguns economistas: já que o pessoal está acostumado a pagar caro, há um abuso por parte das empresas e coisas triviais são taxadas a preço de ouro. Por exemplo, por três lâmpadas de led – duas para a cama de casal e uma na poltrona da sala – a Santo Inácio cobra 540 reais. Ridículo.

A solução desse problema, na minha opinião, deve necessariamente ser conjunta. A infraestrutura dos campings precisa melhorar, a segurança precisa melhorar, as estradas precisam melhorar. Isso aumenta o interesse no consumo, e consequentemente o interesse na produção. O aumento de volume e o aumento da concorrência tornará o processo todo mais barato, o que também aumentaria o interesse em melhores campings e infraestrutura em geral. É um círculo virtuoso em que todos sairíamos ganhando.

3 de abril de 2015 às 17:10

Continuando então o relato, nessa altura já tinhamos alguma compreensão do que o mundo dos motorhomes ao redor de nós tinha a nos oferecer, mas sabiamos pouco sobre o outro braço do mercado de veículos recreacionais: os trailers.

Nas minhas pesquisas com os motorhomes já tinha passado pelos excitantes relatos do @Dardo aqui no forum, contando em detalhe as visitas ao sul do continente em seu Turiscar Diamante (Guanaquito, para os íntimos). Isso acabou com qualquer preconceito sobre viagens mais longas em trailers que pudessemos ter. Então o que mais poderiamos não saber a respeito dessas casas móveis?

Haviam os aspectos que eram intuitivos. Por exemplo, no trailer vão todos dentro do carro, e no motorhome as pessoas podem ir mais a vontade (com uma mesa para uso do laptop, geladeira e banheiro mais próximos em caso de parada, etc). Frequentemente o motorhome também acomoda mais pessoas durante a viagem, e evita a transferência entre os dois veículos em caso de chuva. Por outro lado, com o trailer existe um outro veículo (em geral um bom veículo, no caso dos trailers maiores) que pode ser usado de forma independente. E, é claro, o preço da aquisição é bastante relevante. O valor de um trailer grande usado em muito bom estado é geralmente de três a quatro vezes mais baixo que o de um motorhome médio em estado semelhante.

O que mais poderiamos estar esquecendo? Precisavamos visitar alguns trailers, mas antes disso seria ótimo ter mais informação de um veterano desse mundo. Para tanto, resolvi escrever um email para o Dardo explicando nossa situação e tocando em alguns pontos chave para abrir a conversa: porque trailer e não motorhome? Quais seriam algumas boas opções de veículo para tração?

As respostas, como vocês aqui no forum podem imaginar, foram surpreendentes para nós. Não porque as informações fornecidas divergiam muito do que imaginavamos, mas sim pelo carinho e dedicação investidos em nos ajudar. Somos extremamente gratos pela atenção que recebemos.

Em termos do discutido, o principal ponto enfatizado foi o de se ter um veículo independente para passear nas redondezas dos locais de estadia. Embora já tivessemos esse item em nossa lista, a enfase dada nos abriu mais os olhos quanto a importãncia disso. De fato nas conversas que tivemos e pesquisas que fizemos, os motorhomes de porte médio a grande geralmente carregam uma moto ou um carro a reboque, para deslocamentos locais, o que faz sentido dado a inconveniência de circular com um motorhome e de “levantar acampamento” para toda a saída. A moto é inviável para nós, então teriamos que pensar seriamente em um veículo para acompanhar. Isso são dois motores ao invés de um, e dois seguros, duas manutenções. Além disso, com um veículo único é necessário levar a casa para trocar óleo e fazer outras manutenções regulares que um veículo de tração precisa. Além da impraticidade, não é toda a oficina que comporta um veículo desse porte, e as que comportam costumam cobrar algo a mais por isso.

Sobre as opções de veículos de tração, o Dardo nos colocou a par das necessidades básicas para tração (torque, e portanto motor a diesel, etc), e mencionou algumas opções mais interessantes, incluindo a Frontier SL, Ranger, e nova S10.

Com esses dados em mãos, me pus a pesquisar. Quanto mais estudava, mais gostava da idéia de ter a casa móvel e o carro de tração em veículos separados. Atualmente temos um Fiesta 2009, que eu gosto muito por ser um carro barato, de manutenção barata, seguro (raro modelo do Fiesta com ABS e Airbag dessa época) e bastante potente por ser muito leve. Foto do rapaz logo após o último banho:

Porém, é um carro pequeno, e sentimos mais isso hoje que temos um terceiro tripulante que demanda uma parafernália razoável. Seria ótimo ter uma camionete moderna para passeios mais longos, mesmo quando a casa móvel não for necessária. Por sorte, nosso estacionamento no prédio onde moramos também comporta dois veículos, e há um estacionamento logo ao lado do prédio que comporta trailers, mesmo os de grande porte. Então, comecei a sentir que andavamos remando contra a maré, e que de repente a correnteza estava a favor.

Pesquisando as várias opções de camionetes, excluimos a Frontier logo de cara por não haver autorizada na cidade. Ficou então entre a S10 e a Ranger. Muitas leituras e reviews depois, resolvemos fazer uma visita a Chevrolet local para ver a S10 pessoalmente. Ao mesmo tempo, quis a sorte que houvesse uma S10 2015 usada na cidade, com 6 mil km de uso. Marcamos as duas visitas, uma em seguida da outra… primeiro a nova, depois a usada.

Na Chevrolet fomos recebidos pelo Alex, que nos deu toda a atenção necessária, nos mostrou todo o veículo por dentro, suas características (que já conheciamos, mas não ao vivo) e sob forte pressão nossa fez o melhor preço que conseguiria para o veículo novo. Logo em seguida, fomos visitar o Guilherme e o Nelson, donos da S10 usada, que nos informaram que estavam vendendo o veículo para obter capital de giro. Depois de muita conversa, uma redução generosa no preço, revisões, voltas de teste, fechamos negócio na S10 usada e nos tornamos felizes proprietários de - como diria o Dardo - um bom rebocador, jeep 4x4, e veículo de passeio:

Agora tinhamos metade do problema resolvido, e em paralelo estudavamos os trailers, que agora eram um destino certo. Na continuação da história, mais visitas e mais fotos.

Novamente, muito obrigado ao Dardo por toda a força.

Mais uma vez, de nada.

Dardo.

3 de abril de 2015 às 18:08, por Paulo Rogério

Aguardaremos as cenas do próximo capítulo!

3 de abril de 2015 às 19:03, por Joao Maia

Pois é Gustavo. Você tem razão.

Quanto aos preços no Brasil, não se justificam. Veja por exemplo quanto custam 3 spots acompanhados de excelentes lãmpadas de 12v de 190 lumes (lâmpadas compradas na China (aliexpress) custam cerca de US 3,00 cada!

Desisti do meu Camper por outras razões. Recentemente aluguei um motorhome em Frankfurt por cerca de 100 euros a diária e passei quase um mês pela Europa com a família, pagando cerca de 20 a 25 euros pela diária de campings excelentes. Nos EUA também pode-se alugar ótimos motorhomes ou trailes. Tudo pode ser feito daqui mesmo pela internet.

Será que vale a pena investir R$ 350.000 em um motorhome? Creio que os amantes de trailes e motorhomens poderiam começar a pensar em construir os seus na garagem de casa. Não é tão complicado assim (conheço quem já fez isso). Muitos acessórios podem ser comprados na internet. É preciso um bom marceneiro para os móveis. As instalações elétricas são fáceis (bateria estacionária, conversor, carregador de bateria, depósito para água potável e servida (fáceis de comprar), banheiro químico (a amazon.com envia para o Brasil, já comprei um da CAMCO).

É mais fácil construir um trailer do que um motorhome, mas pode-se adquirir uma Van, forrar as paredes internas com lã de vidro ou isopor e compensado naval (deixando antes a fiação embutida). Vi, no YouTube, um feito com paredes internas de drywall e lã de vidro. Não ficará tão perfeito quanto um desses de fábrica, mas compensa para quem quiser se dar ao trabalho. Tudo, tudo mesmo (geladeira 12v, fogão, chuveiro, bombas dágua etc) pode ser comprado pela internet na Amazon americana, alemã, francesa ou inglesa. É preciso usar a imaginação e fazer um projeto no papel.

Este aproveitou um furgão:

Existem dezenas de projetos no youtube.

4 de abril de 2015 às 11:40

Com certeza é possível, João, e deve ser divertidíssimo. Gosto muito de fazer as coisas em casa também. O problema nesse caso é que o tempo é finito, e precisamos escolher o que fazer com ele.

4 de abril de 2015 às 14:12

Seguindo a história então, enquanto o negócio da camionete era fechado fomos em busca de trailers locais para conhecermos melhor um exemplar por dentro. Encontramos apenas um único Turiscar a venda na cidade, um Rubi. O anúncio informava que havia sido reformado a pouco para uso próprio, mas o dito ficou parado após a reforma esperando por um pouco de ação. Agendamos então a visita por telefone com o Venâncio para ver o candidato ao vivo.

Antes de irmos, conversei com minha esposa para prepará-la para ver algo que não estaria nas condições que gostaríamos. O dia novamente estava quente, e apesar do anúncio informar uma reforma, o valor estava baixo, então não esperava encontrar algo em um estado fantástico. Seria problemático para nós se a primeira impressão prática sobre trailers fosse traumática. Pedi então que direcionassemos nossa atenção para fatores que seriam constantes e independentes do estado: o espaço interno, a acomodação dos móveis, o tamanho da mesa, e assim por diante.

Na visita fomos inicialmente recepcionados pelo pai do Venâncio, que havia sido o principal usuário do trailer, e logo em seguida chegou o Venâncio para nos mostrar os detalhes.

O trailer era um Rubi, do modelo antigo que ainda tinha o janelão na frente. O estado geral era razoável:

Mas haviam algumas coisas mais complicadas para serem resolvidas, provavelmente resultado de ter ficado na rua por muito tempo:

De qualquer forma, como combinamos procuramos prestar mais atenção no espaço interno e disposição geral das coisas, para melhorar nossa ideia do que buscavamos. O espaço era bom, mas o ideal seria se houvesse uma terceira cama além da de casal e da mesa da sala, para podermos acomodar o rapazinho sem comprometer a mesa principal para nosso uso. Fora isso, ambos achamos que nos sentiríamos bem dentro de um ambiente renovado naquele formato.

Ao final da visita, questionei sobre sua experiência enquanto criança nesse mundo dos passeios com a casa a reboque, e a resposta foi totalmente positiva. Encorajador para nós que estamos prestes a colocar nosso filho no mesmo rumo.

Como parte desse papo, também recebemos mais uma dica sobre o “esconderijo” dos trailers e motorhomes em nossa cidade. De outras conversas, já sabiamos que havia um estacionamento em alguma parte da cidade que muitos proprietários utilizavam para esse fim, mas não sabiamos onde. O Venâncio também não tinha o endereço, mas tinha ouvido falar que ficava perto de uma determinada região da cidade. Com essa dica fui até a região, e começei a perguntar em pontos próximos (postos, etc) se sabiam onde ficava, até que achei.

Não era exatamente um estacionamento, mas sim um galpão antigo, e o ponto realmente é um tanto escondido, o que justifica as pessoas com quem tinhamos contato não saberem dizer ao certo onde é. Mesmo tendo visitado, eu mesmo não sei dizer o endereço. Teria que explicar como chegar.

O visual do local é legal:

Infelizmente, está lotado. Tem até trailer sobrando que tem que ser manobrado para tirar o de trás.

Lá bati um papo com o Carlinhos, que cuida o local, com o Eduardo, dono de um Turiscar Eldorado que fica lá, e com o Oliveira, dono de um antigo motorhome Turiscar que dorme lá também. Na conversa, um deles ficou impressionado que tinhamos a idéia de rebocar um trailer de maior porte com uma S10, pois acreditava que trailers de dois eixos eram mais instáveis, segundo experiência própria rebocando um desses há tempos atrás, e também que a S10 não era potente o suficiente. Respondi que esses detalhes não parecem corretos, e que embora um novato nesse mundo, nas pesquisas que fiz (e pela lógica) os trailers de dois eixos são mais estáveis, e que provavelmente a experiência dele havia sido com um trailer da Karmann Ghia com uma suspensão comprometida, e informei que a nova S10 tem potência e torque razoáveis. Ele confirmou que havia sido um trailer da Karmann Ghia, mas permaneceu incrédulo sobre a potência da S10 ser adequada. Fazer o quê?

No todo muito boas conversas, e gostamos de ter conhecido o Rubi e seus donos. Precisavamos ver mais trailers.

Continua…

4 de abril de 2015 às 15:46, por Andre Americana

Muito bom…sinto que logo logo teremos fotos do equipamento já comprado!

5 de abril de 2015 às 23:02

Estamos quase lá, Andre. :slight_smile:

Depois da visita local, começamos a planejar um tour para visitar vários trailers usados. Como esperado, a maior concentração de veículos no estado fica na volta de Porto Alegre, então fizemos uma lista inicial de veículos interessantes que gostariamos de ver durante um final de semana estendido. Além disso, duas das principais empresas de trailers do estado, a Sinostrailer e a Casa do Camping, ficam ao lado de Porto Alegre em Novo Hamburgo e São Leopoldo respectivamente, então incluímos ambas no tour também.

Enquanto preparavamos a rota do tour e faziamos a filtragem da lista, acabamos percebendo que três dos trailers semi-novos que gostariamos de ver na verdade estavam sendo anunciados pela Casa do Camping e pela Sinostrailer, e vimos também que haviam trailers usados anunciados pela Sinostrailer em excelente estado, e que provavelmente estariam em estado no mínimo equivalente ao que achariamos no mercado fora dali. Com isso, acabamos fazendo uma filtragem mais radical para otimizar nosso tempo, e resolvemos visitar somente a Sinostrailer e a Casa do Camping, nessa ordem. Se não achassemos algo usado interessante em nenhuma das duas, já poderiamos conversar sobre a construção de um novo na Casa do Camping com todas as possibilidades em mente.

E assim o fizemos. Passamos um final de semana com amigos na região, e na segunda-feira fomos até a Sinostrailer para conversar. Fomos incrívelmente bem recebidos pela Elisa e pelo Paulo. Além do profissionalismo evidente, o casal nos fez sentir em casa, com direito a chimarrão e tudo. Explicamos que gostariamos de ver trailers entre 6 e 7 metros em bom estado, e a Elisa rapidamente fez uma seleção das chaves mais adequadas para uma caminhada no pátio.

Começamos por um Turiscar Vila Rica Residence 94:

Gostamos muito desse. Precisaria de algum retoque para deixá-lo com a nossa cara, mas parecia um candidato razoável a se tornar nossa casa móvel.

Em seguida fomos ver um Turiscar Diamante Club 95, também em ótimo estado:

Também pareceu um bom candidato. Os preços eram semelhantes, e as coisas que gostariamos de arrumar também, então ainda ficamos mais inclinados ao Vila Rica que tinhamos visto antes, pelo espaço.

Dando mais uma volta no patio também tivemos a sorte de poder ver algumas outras curiosidades. Por exemplo, esse trailer ficou embaixo d’água em torno de um mês nas enchentes que houveram em São Lourenço do Sul no RS, e está sendo refeito praticamente do zero:

E esse outro estava sendo pintado:

Também havia esse trailer no meio da loja que estava sendo refeito do zero. Segundo o Paulo, era originalmente um Turiscar Vila Rica do qual foi aproveitado só o chassis. O objetivo inicial era para uso próprio, então ele tem uma série de particularidades como ser um pouco mais alto que o normal, uma porta mais larga, e o objetivo é utilizar fibra ao invés de alumínio:

Após o início dos serviços, o Paulo acabou conseguindo um Imperial em bom estado para uso próprio, e mudou o plano incial. Os serviços nele continuam, mas mais devagar.

Além dos trailers, outro fator que chamou atenção era o número alto de motorhomes no pátio. Alguns estavam a venda, mas muitos estavam lá para manutenções diversas, e uma boa parte dos donos destes queriam seus veículos de volta para os passeios de Páscoa, então a atividade era grande.

Após o tour no pátio da Sinostrailer, ainda haviam mais dois trailers anunciados por eles que gostariamos de ver e que não estavam no pátio. Um deles não conseguimos agendar, mas o outro estava por perto e resolvemos visitá-lo com a companhia do Paulo:

Infelizmente não tirei fotos internas dele, mas está em muito bom estado, incluindo dois ar condicionados split, aquecedor a gás, e outras modificações que a própria Sinostrailer fez. Possivelmente em condições de colocar na estrada e viajar no ato. Por outro lado, o preço está um pouco elevado, acompanhando o estado do trailer. Era mais uma possibilidade a ser pensada.

E assim encerramos a visita a Sinostrailer, com um pouco de pressa a essa altura pois a tarde estava indo embora e ainda queriamos ter um bom tempo de conversa na Casa do Camping.

Ao sairmos, conversamos entre nós o quanto gostamos dessa visita. É raro hoje em dia ver empresas com pessoas tão simples e simpáticas, e independente de onde comprarmos nosso trailer, já sabemos onde queremos fazer a manutenção dele.

Na próxima conto sobre nossa visita a Casa do Camping.

6 de abril de 2015 às 23:54, por Evandro Schenato

Parece a minha história, aguardo o desfecho, pois até agora fiz tudo bem parecido, mas como não decidi (estou no meio do processo) inclusive a camionete já adquiri. Uma l200.